História do Fim

Começa com os detalhes — assim como foi no início — , sutis, capazes de despertar certa pulga atrás da orelha: a sensação pungente de que algo está errado.

Nascia no toque automático, não de quem encosta na pessoa amada, mas de quem fecha uma porta porque era assim que tem sido feito por muito tempo. Era robótico, controlado, cheio de “porque sim”, quando o esperado era justamente o oposto: paixão.

Cresceu, germinando em palavras duras, impaciência e até uma indiferença gélida. Era difícil entender: me sentia louca, vendo coisas, sem entender qual era o problema ou se, de fato, havia um problema. Atos pequenos como segurar a mão em público ou corresponder a um abraço eram distantes ou mesmo completamente ausentes. Cobrar o mínimo me deixava desconfortável, eu, que sempre faço questão de falar, ser honesta e até me impor.

Não me sinto injustiçada: sei que faltou cultivo de minha parte, palavras mais doces, menos cobranças, mais carinho, talvez: menos desespero, no geral. Sei que poderia ter feito muitas coisas e, pelos mais diversos motivos, elas estiveram fora do meu alcance. Talvez eu não tenha me esticado o suficiente, levantado as mãos mais alto, me equilibrado na ponta dos pés. É provável que tenha faltado em mim algo que, talvez, não queira ter.

As páginas do meu diário estão manchadas de lágrimas, grandes bolas de tinta diluídas por água salgada — é desesperador, sufocante, a incerteza e a vulnerabilidade de dormir ao lado de alguém que não sabe o que sente. Me sinto frágil, prestes a desmanchar em palavras, gritos e dúvidas. Diferentemente de outras vezes, agora sinto que não vou sobreviver, que algo em mim desistirá, que vou, de fato, quebrar.

Não é culpa dele. Além de mim, é culpa de todos. É difícil permanecer inteira depois de tudo o que aconteceu: todos têm limites, e sinto na minha pele e ossos que atingi o meu. Sei que depois disso vou me fechar, morrer um pouco (torço para não morrer de vez), não pela tristeza de não tê-lo mas pela depressão que é não ser digna de amor.

Se pudesse voltar no tempo, deixaria que meu último texto sobre ele fosse aquele, ruim, mal escrito de tanta tristeza: nele, eu não pude deixar tudo o que queria dizer. Era esteticamente fraco, etimologicamente pobre porque estava sendo afogada pelo medo e minhas entranhas que gritavam que não era a hora, que aquele sujeito tinha tanto para me oferecer.

Bom, diria para aquela Carol que ele iria sim, me oferecer muita coisa, de tudo na verdade, até o momento em que eu iria querer uma enxurrada de abraços, cheiros, risos e aventuras e ele já não teria nada, nem a mão estendida.

Tenho medo — nada é certo. Ele voltará com uma de três alternativas: incerteza, certeza de que é hora do fim ou a certeza que meu olhar ainda é o preferido dele. Eu já sei qual será a resposta. Já sei que minha ausência o energiza, enquanto a ausência dele me consome, cheia de histórias, links, acontecimentos e piadas que não tenho com quem compartilhar.

Sem ele me entretenho mas não me preencho. Me inunda o pensamento de que o amo intensamente, de que poderia passar o resto da vida ouvindo os seus comentários mau humorados, mas que falta o mais necessário dos sentimentos: reciprocidade.

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Hoje uma moça que cuida de pessoas que não sabem comer me disse que pareço uma bonequinha pin up.

Ela foi gentil como uma flor dourada, e eu queria pintar a boca grossa dela que ela disse não gostar. Eu queria recria-la em ouro e marrom, e eu queria dizer com isso tudo que foi a primeira vez que alguém me tratou como alguém que precisa de certos cuidados.

Ela não sabe nada de mim, mas sabe pelo jeito que seguro minhas próprias mãos e coloco os pés na balança que não tem sido fácil, que minhas escolhas foram frustradas e que chegar até ali foi custoso. Ela soube, e ela era paga para isso.

Disse a ela, que tinha tanta boa vontade e um sorriso de quem se oferece, que eu iria tentar fazer diferente. Mas tenho medo: é estranho ser vista como algo frágil, como alguém que merece boa comida nutritiva e um café da manhã.

Eu não me daria um “pão véio” como diz minha mãe. Eu não me daria nada. E agora essa mulher desconhecida me diz que mereço saúde, novos caminhos, e até um suchá de coisas gostosas antes de dormir.

Essa mulher que sequer me conhece quer que eu durma pensando coisas boas. E eu passei tanto tempo me torturando com a cabeça no travesseiro.

É uma sensação estranha alguém que nunca te viu tentar te ensinar como se amar. E o pior é que preciso mesmo da lição.

sonhos estranhos I

Existem algumas ciências sobre a interpretação dos sonhos mas, pelo que sei, nenhuma delas foi provada como correta. O que se pode afirmar com alguma certeza é que sonhamos com o que está em nosso subconsciente, frequentemente reprimido pela consciência influenciada por normas sociais e a porra toda.

Baseando-me nisso, posso afirmar que meu subconsciente é uma bagunça completa.

Noite passada, no meu subconsciente, uma amiga querida sentia uma necessidade irresistível de se matar. Eu não conheci ninguém que se matou: lembro que a irmã de uma babá que tive lá pelos seis anos – era ela quem trançava meu cabelo – um dia estava chorando porque sua irmã tinha tomado chumbinho.

(Me disseram com frequência que para morrer de chumbinho você tinha que engolir a quantidade certa de bolinhas, nem a mais, nem a menos. É meio que assim pra quase todo método, exceto que, neste caso, exagerar não era a saída – como quase tudo na vida.).

Minha amiga tomou algum veneno e alguém a forçou a beber algo que fazia vomitar; o vômito dela saiu amarelo. Havia cobras por perto, eu tinha medo e não entendia porque ela iria querer tirar a própria vida.

Acordei muito triste e fiquei o dia todo numa montanha-russa emocional, numa alegria de brilhar os olhos, numa tristeza paralizante. Me senti surpreendida pelo fato do desejo de morrer ser algo desconhecido a mim no sonho: eu que já misturei remédios, eu que já me cortei, eu que já tentei me jogar na Avenida Antônio Carlos para destruir a minha vida e também a do pobre coitado do motorista que me atingisse.

Passei todas as últimas 12 horas procurando meios de me sabotar e me sentir mal: escrevi matérias ruins, me comparei, me imaginei sendo traída e machucada, me deixei levar pelos pensamentos mais horríveis. Tudo isso sem perceber – eu não sou idiota, eu não procuraria me sentir mal deliberadamente. Como quase tudo que faço, não entendo o porquê. Sei que minha amiga não iria se matar, sei que eu não vou me matar (agora). Sei que suicídio não é a minha realidade e não é um pensamento constante na minha cabeça.

Sei de tantas coisas, mas não sei de nada ao mesmo tempo. Me sinto invadida por pensamentos e lembranças, todas me batendo como socos na cara, todas as pessoas que perdi me assombrando. É uma loucura lembrar de tanta coisa horrível e não conseguir entender para onde ir com tudo isso.

Seria muito mais fácil esquecer de tudo que me aconteceu e do que posso sentir.

depressão e outras coisas

Uma vez uma amiga me disse que se surpreendia com o fato das pessoas que ela mais admira serem todas depressivas. Desde então, pensei muito nisso, e percebi que o mesmo acontecia comigo. Claro que existem as pessoas que admiro justamente pelo otimismo, força e capacidade de seguir em frente.

Acho estranho como a depressão nos abraça: ela não vem sorrateira. Dizem que os sintomas, os sinais de que chegou uma nova hospede são notáveis, que se pode prevenir. Não sei quem vê de fora, mas o hospedeiro não percebe. Um dia ele simplesmente se acua, se fecha em botão de rosa silenciosa, numa melancolia indigna e que custa a ir embora. O hospedeiro só senta ali, percebendo que tem sim algo errado, talvez seja só desânimo pelo calor, pelo dia sem graça… mas não. O hospedeiro percebe quando se olha no espelho que ou a expressão amargurada ou o ar da indiferença coroam a chegada da parasita chamada depressão.

O hospedeiro se fecha. Ele assume que precisa de ajuda, que precisa de carinho (não o aceita, aliás), que precisa de um médico, mas vamos ser honestos: ele entende que está doente. Doentes não conseguem sair da cama. E o médico não vai até a cama.

O hospedeiro permanece no quarto.

O hospedeiro dorme e deixa as lágrimas caírem, muitas vezes de forma tão apática que parece um simples lacrimejar. Ele não atende telefonemas, e, quando fala com alguém, não se deixa ajudar. Ele ouve, calado, enquanto aqueles que o amam choram do outro lado da linha, sentindo que não podem fazer nada. O hospedeiro decide fugir e desliga o telefone.

De 30/10/2012

primeiro post do blog, três anos antes

Nada me surpreende em eu tirar o primeiro post desse blog para falar da minha insegurança. Nada surpreende que, de tudo que me aflige, essa talvez seja a que mais me martela o tempo todo.  Parece que por um segundo que fosse, eu gostaria muito de ser aquela mulher para a qual todos olham. Aquela que ofusca.

Não que isso fosse me levar muito longe, na verdade acho que isso talvez só despertasse mais a ainda a escrava da aparência que vive em mim. Mas eu gostaria muito de viver isso um pouco, sentir o gosto.

Sei lá.

No fundo no fundo percebo que só quero ter segurança de mim, da minha aparência. Sair de casa sem achar que preciso de maquiagem ou de 5kg a menos. Sem achar que meu cabelo precisa de um corte… queria me livrar de espelhos. Eu poderia cobri-los, evitá-los, mas no fundo minha percepção de aparência e corpo não é visual. É mental. É doentia. É abismo.  É como se por dentro eu estivesse sempre de frente para um espelho que me distorce, que me diz que eu não sou bonita o suficiente, engraçada o suficiente, inteligente o suficiente.

É como se no fim, não me restasse nem a esperança de me ver como eu realmente sou… se é que eu sou algo além disso. Muitas vezes eu me forço um amor-próprio que vive em mim por algumas horas e morre assim que vejo uma foto minha que não parece boa o suficiente. Eu podia ter comido menos no dia. Podia ter me maquiado melhor. Escolhido uma roupa mais bonita. Podia ter sorrido mais. Ter sido mais legal com as pessoas. Ter me doado mais. Eu sempre poderia ter sido, feito mais… e cansa demais estar sempre atrás de um objetivo que é impossível de alcançar.

Me acho diferente, mas isso é só mais um drama de uma garota que ouve todos os dias que a calça 36 não cabe nela, que a pele dela não é lisa o suficiente e o caralho a quatro. É só mais um drama de todas nós. Mas agora é meu. E eu quero chorar esse drama… só não sei até quando.

 

De 21/09/2012

umas paradas que eu pensava sobre amizade

Não vejo ninguém falar sobre o desejo de se ter alguém que perpasse os limites do amor sensual. Eu não quero amar mais nungém dessa forma. Já passei por isso e creio muito veementemente que não desejaria algo do tipo se não o tivesse. Cheguei a conclusão que esse tipo de sorte se aparece e não se procura: comigo apareceu quando eu menos queria e acho que seja assim com grande parte das pessoas. O que é bom, quando o assunto é pessoas, não se pode simplesmente correr atrás e perseguir como um emprego ou um erro a ser consertado. As coisas aparecem quando tem de aparecer.

Entretanto, para mim, o terreno é bem mais pedregoso na amizade: sempre nos ensinam que amizade deve vir antes do amor, porque o segundo é mais volátil. Talvez eu tenha feito escolhas erradas e tortas, mas para amizade nunca foi carinho em rosto molhado de lágrimas. Há anos me sinto inadequada, indesejada. Amar para mim sempre foi mais fluído e fácil: eu nunca tive que me montar por amantes, mas por amigos eu me viro do avesso. Alguns diriam que se eu quero agradar muito mais um que o outro, quer dizer que meu amor pelos amigos é menor. Eu acho que não se mede amor assim, e acho (muito fielmente inclusive) que quanto mais naturalmente uma relação se desenrola, mais sintonia se encontra, mais amor nasce.

Talvez eu nunca tenha amado meus amigos, se nunca me senti parte de um todo. Me senti parte, fragmento, migalha: mas nunca dentro de um grupo. Nunca com meu individual sendo compartilhado.

Sempre sonhei com as tardes que se perderam pelos meus 12 anos, de amores sendo compartilhados, de fofocas entre amigas, de uma sisterhood que eu ainda não conhecia pelo nome e que agora sinto falta. De conversas sobre rapazes bonitos e do que afinal os meninos gostavam? De brincar depois de já nem ter idade, de chorar com medo de por um fim em algo que ue sabia que iria terminar.

E aí fiquei sozinha, e me acostumei a ficar sozinha, sem ter muito além da ideia de uma amizade que talvez sequer existisse dentro de uma realidade fora da tv, dos livros que me faziam companhia.

Sonhei mil e uma vezes com uma amizade que me trocasse segredos, que chorasse comigo, que me defendesse e estivesse do meu lado. Com uma amizade que não me tratasse como uma escrota que está sendo mais chata que o normal e sim como alguém que tinha um problema e merecia sim uma repreensão: mas era aquela repreensão amiga, não repreensão de quem não te suporta mais.

Acho que meu trauma foi saber que eu sou do tipo que não é suportada.

De 22/10/2012

nada mudou de lá pra cá

É difícil para mim dizer como eu funciono. O que sei é que existem dias em que eu não consigo me mexer muito bem, como se todas as minhas articuações doessem, e pensar é um esforço muito grande. Hoje é um desses dias.

Eu sinto muitas coisas. Sinto muita dor e muito carinho por pessoas e coisas: me sinto um balão de sentimentos prestes a estourar. Não é agrádavel de se sentir assim. Eu sinto por mim e por todos os outros, e qualquer coisinha me faz querer me embrulhar em cobertas e desaparecer: parece mais fácil.

De 04/01/2013